E-mail: O fundador que estruturou tudo mas a família ainda está quebrada

Recebi, recentemente, uma mensagem como esta: De: Henrique Assunto: Fiz tudo certo e mesmo assim está desabando "Ronaldo, boa noite. Sou o Henrique. Tenho 72 anos, fundei minha empresa há 42 anos. Tenho três filhos, todos maiores de 35 anos, todos com participação na empresa. Nos últimos cinco anos, contratei um escritório de advocacia de ponta. Estruturei holding, planejei tributação e desenhei sucessão. Tudo está documentado, tudo está em ordem, tudo está 'pronto'. Mas a empresa está desabando por dentro. Meus filhos praticamente não se falam. Existe uma disputa silenciosa sobre quem vai assumir. Ninguém é feliz. A energia está toda consumida em política interna. Meu advogado diz que juridicamente está tudo certo. Mas eu sinto que errei em algum lugar, porque, se estruturasse certo, meus filhos não estariam dessa forma. Minha pergunta é: onde eu errei? O que eu deixei de fazer que deixou a família assim?" Henrique, você não errou em estruturar. Você errou em acreditar que estrutura jurídica era suficiente. A estrutura que você criou, holding, planejamento tributário, documentação, tudo isso é correto e necessário. Mas é apenas uma parte do trabalho. A outra, que você deixou de fazer é lidar com o relacionamento estruturado, ou seja, o diálogo, a governança, o processo de sentar com seus filhos e dizer claramente: "Aqui está como a empresa vai ser governada. Aqui está quem vai decidir sobre o quê. Aqui está como vocês vão ser reconhecidos. Aqui está como a família vai processar divergência. Aqui está como continuamos unidos mesmo quando discordamos." Porque sem essa clareza, esse método, sua estrutura jurídica está apenas organizando o cenário onde o conflito vai acontecer. Seus filhos estão em disputa silenciosa porque ninguém sabe qual é o sistema e ninguém sabe como é tomada a decisão. Ainda, têm dificuldade em perceber qual é seu espaço legítimo e, desta forma, cada um está lutando por espaço no improviso. Como não há previsibilidade, estão atuando mais em instinto de proteção e busca por reconhecimento do que, propriamente, de forma racional. E quanto mais tempo passa, mais ressentimento se acumula, pois cada um está interpretando silenciosamente o que significa aquela estrutura jurídica e mantendo sua própria narrativa sobre por que aquele documento foi feito assim. Então, estão projetando medo na ambiguidade. Então, você só é mais uma das vítimas dessa visão parcial e torpe sobre como lidar com um plano de sucessão de uma família empresária, quando vários “consultores”, de forma simplória, induzem o cliente a acreditar que “holding” resolve todos os seus problemas. O que você pode fazer agora? Chamar um diagnóstico de governança. Não para mudar a estrutura jurídica (que pode estar correta), mas para criar clareza sobre como a família vai funcionar dentro dessa estrutura. Assim, será possível fazer as conversas que deveriam ter acontecido antes, desenhando papéis, critérios de decisão e fóruns apropriados. Quando você cria método, a empresa sai do improviso. E seus filhos conseguem finalmente entender qual é o jogo que estão jogando. Ronaldo Behrens Sócio ABC Prosperity, PhD, Especialista em Neurociência do Comportamento e Professor da Fundação Dom Cabral. __________________________________________________________________________________________________ Este conteúdo tem finalidade estritamente informativa e educacional, não constituindo oferta, recomendação ou solicitação de serviços. Casos mencionados são anonimizados e não identificam clientes. Informações tratadas conforme LGPD. ⚠️ Disclaimer: O caso descrito acima é fictício e foi criado com base em padrões recorrentes da minha experiência profissional com fundadores em processos de estruturação patrimonial e sucessão. Nomes, localizações, setores e situações foram inteiramente inventados para fins ilustrativos. Qualquer semelhança com pessoas, empresas ou situações reais é mera coincidência. A identidade e a confidencialidade de clientes e casos reais são, para mim, um princípio inegociável.