E-mail: O conselheiro que vê o Conselho de Família virar palco de disputa
Recebi, recentemente, uma mensagem como esta: De: Marcelo Assunto: Como eu facilito conversas que estão virando brigas? "Ronaldo, boa noite. Sou o Marcelo. Tenho 55 anos, sou conselheiro externo de uma família empresária há cinco anos. Eles criaram um Conselho de Família há dois anos, por minha sugestão. No começo funcionou bem. As reuniões eram construtivas. Pessoas se abriam. Mas nos últimos meses, o Conselho virou um palco de disputa. O pai usando a reunião para tentar convencer os filhos de suas visões. Os filhos usando a reunião para questionar a legitimidade do pai. Ninguém está realmente ouvindo ninguém. E agora a família está pedindo para eu pausar as reuniões; o que significa que o Conselho morreu, na prática. Minha pergunta é: como eu facilito conversas que estão virando brigas? Como eu mantenho segurança na sala quando a dinâmica familiar está tão contaminada?"* Marcelo, o que você está descrevendo é um padrão que vejo frequentemente: Conselho de Família que começa bem e depois desmorona quando o conflito real emerge. Porque eis a verdade: o Conselho de Família não é um espaço para resolver conflito subjacente. É um espaço para conversar sobre temas de família, tais como valores, visão de futuro, papéis, expectativas. Quando existe conflito não resolvido por baixo — quando o pai não soltou o controle, quando os filhos não construíram legitimidade própria, quando existem ressentimentos acumulados — o Conselho não consegue funcionar. Porque agora a reunião vira campo de batalha de temas não resolvidos. O que você está vivendo não é falha do Conselho. É sinal de que existe trabalho de governança que precisa acontecer antes ou em paralelo com o Conselho. Como facilitador, você tem algumas opções: Opção 1 — Pausa estratégica: você pode sugerir para a família que o Conselho entre em pausa. Não morrer, mas pausar. E que se faça um processo de diagnóstico para entender qual é realmente o conflito que está emergindo. Opção 2 — Mudança de facilitação: você pode reconhecer que precisa de alguém com expertise em dinâmica de conflito familiar, não apenas em facilitação de Conselho. Porque agora o trabalho não é mais sobre estruturar conversa. É sobre facilitar que conflito seja processado. Já participei de um trabalho de terapia neste sentido. Opção 3 — Mudança de escopo: você pode conversar com a família que o Conselho precisa de estrutura diferente, com pauta mais definida, tempo mais delimitado, facilitação mais firme sobre regras de engajamento. Ainda, pode ser o caso de se integrar ao trabalho a criação de um Conselho Consultivo, pois ali o diálogo, embora com pautas diferentes, também ocorre. O Conselho de Família é uma estrutura poderosa. Mas é estrutura. E estrutura só funciona quando existe base de segurança. Quando não existe, estrutura vira teatro. Ronaldo Behrens Sócio ABC Prosperity, PhD, Especialista em Neurociência do Comportamento e Professor da Fundação Dom Cabral. __________________________________________________________________________________________________ Este conteúdo tem finalidade estritamente informativa e educacional, não constituindo oferta, recomendação ou solicitação de serviços. Casos mencionados são anonimizados e não identificam clientes. Informações tratadas conforme LGPD. ⚠️ Disclaimer: O caso descrito acima é fictício e foi criado com base em padrões recorrentes da minha experiência profissional com conselheiros de família, dinâmicas de Conselho de Família e facilitação de conflito. Nomes, localizações, setores e situações foram inteiramente inventados para fins ilustrativos. Qualquer semelhança com pessoas, empresas ou situações reais é mera coincidência. A identidade e a confidencialidade de clientes e casos reais são, para mim, um princípio inegociável.