E-mail: A consultora que herda a empresa mas não herda o respeito
Recebi, recentemente, uma mensagem como esta: De: Mariana Assunto: Como eu construo legitimidade quando ninguém acredita que eu consigo? "Ronaldo, boa noite. Meu nome é Mariana. Tenho 42 anos, sou filha do fundador de uma consultoria que fatura R$ 30 milhões anuais. Trabalho aqui há 15 anos, em posições cada vez mais sênior. Tenho MBA, tenho experiência, tenho resultado. E meu pai finalmente disse que vou assumir a empresa. Mas existe um problema. Os clientes principais não acreditam em mim. Os consultores sênior — alguns que trabalham aqui há 20 anos — não me respeitam. Eles continuam procurando meu pai para validação. Eles continuam colocando em dúvida minhas decisões. E eu sinto que estou começando tudo de novo. Apesar de 15 anos aqui, de demonstração de competência, de resultados, sinto que estou começando do zero em termos de legitimidade. Meu pai está tentando ajudar, mas cada vez que ele intervém, piora. Porque reforça a mensagem de que eu não consigo sozinha. Como eu construo legitimidade genuína num contexto onde as pessoas olham para mim e veem apenas a filha do fundador, não a consultora competente que sou?"* Mariana, sua situação é frustrante porque você já provou sua competência, e mesmo assim precisa provar novamente. Essa é uma das realidades mais difíceis da sucessão: legitimidade não é portável. Você não herda a legitimidade que seu pai tem, você começa do zero, mesmo tendo demonstrado competência por 15 anos. Por quê? Porque legitimidade em contexto de família é diferente de legitimidade em contexto meritocrático. As pessoas veem você, mas antes de verem sua competência, veem seu sangue, ou seja, a oportunidade que você teve por ser filha ou a vantagem que você ganhou por sobrenome. E tudo que você conquistou por mérito fica contaminado por aquela percepção. O que muda isso? Três coisas simultâneas. Primeira: seu pai precisa sair da conversa. Não da empresa, mas da conversa sobre sua competência. Cada vez que ele valida você, ele reforça que você precisa de validação dele. Portanto, é importante que ele dê espaço para que você funcione independentemente. Segunda: você precisa ser extremamente clara sobre critérios e resultados. Não esperança, não promessa, mas números, dados. Resultado demonstrável. Porque números não mentem. Números não têm emoção. Números separam competência de nepotismo. Terceira: você precisa de coragem para tomar decisões que o seu pai não tomaria, porque enquanto você estiver fazendo exatamente o que ele faria, as pessoas vão comparar e sempre vão dizer que era melhor quando ele estava fazendo. A legitimidade que você construir precisa ser sua. Diferente dele. Talvez melhor, talvez diferente, mas sua. Isso é arriscado. Mas é o único caminho para legitimidade genuína. Ronaldo Behrens Sócio ABC Prosperity, PhD, Especialista em Neurociência do Comportamento e Professor da Fundação Dom Cabral. ⚠️ Disclaimer: O caso descrito acima é fictício e foi criado com base em padrões recorrentes da minha experiência profissional com herdeiras em processos de sucessão e construção de legitimidade. Nomes, localizações, setores e situações foram inteiramente inventados para fins ilustrativos. Qualquer semelhança com pessoas, empresas ou situações reais é mera coincidência. A identidade e a confidencialidade de clientes e casos reais são, para mim, um princípio inegociável.