E-mail: A sócia que vê a empresa crescer mas a família desabar

Recebi, recentemente, uma mensagem como esta: De: Carolina Assunto: Como conciliar sucesso da empresa com fracasso da família? "Ronaldo, boa noite. Meu nome é Carolina. Tenho 55 anos, sou co-fundadora de uma empresa de tecnologia, junto com meu irmão Daniel, 58 anos. A empresa cresceu muito. Faturamos bem acima de R$ 500 milhões anuais. Temos reconhecimento no mercado. Somos cases de sucesso. Mas internamente, estamos desabando enquanto família. Daniel e eu não nos falamos direito há dois anos. Não por um conflito explícito, mas por uma série de pequenos ressentimentos que se acumularam. Ele acha que eu sempre quis mais poder. Eu acho que ele deixou de se importar com a visão original da empresa. Nenhum dos dois consegue conversar sobre isso com sinceridade. Contratar um presidente externo ajudou a empresa a continuar crescendo. Mas não resolveu o que está quebrando: o relacionamento entre nós. E agora está ficando complicado. Temos dois filhos na empresa — um meu, outro dele. E eles estão carregando a tensão dessa história toda. Estão vendo que tios não se falam. Que decisões importantes passam por conflito não tratado. Como é possível ter uma empresa de sucesso com família desabar? Como eu protejo minha filha dessa dinâmica ruim que herdou?"* Carolina, sua pergunta toca num ponto crítico: é possível ter empresa forte com família frágil. Mas só por um tempo. Aquela frase que ouvimos — "nos negócios, profissionais" — é meia verdade. Você consegue separar emoção de decisão por um tempo. Consegue colocar um presidente externo que resolve a operação. Consegue fazer a empresa crescer. Mas o que você não consegue é eliminar que existe uma família por trás dessa empresa. E que aquela família está vendo, absorvendo, sendo impactada por cada interação, cada silêncio, cada ressentimento. Os filhos — sua filha, o filho do Daniel — eles vão herdar não a empresa que você construiu. Vão herdar o padrão de como você e Daniel funcionam, se relacionam. E se esse padrão é baseado em conflito não resolvido, em comunicação evitada, em ressentimento silencioso. Eles vão herdar exatamente isso! A pergunta real não é "como protejo minha filha?" A pergunta é "como resolvo a questão com o Daniel?" E não é fácil. Porque dois anos de silêncio criam uma estrutura, um modus operandi. Cada um tem sua narrativa sobre por que o outro está errado. Cada um tem evidências para provar seu ponto. Mas existe um caminho: estrutura construída a partir de diálogo. Não uma conversa casual de almoço — que vai ser defensiva, que vai reativar ressentimentos; mas sim uma conversa estruturada, com facilitação qualificada, com intenção clara de não estar vencendo, mas de estar entendendo, de estar na direção de resolver o conflito. Quando vocês conseguem fazer isso — quando conseguem falar sobre o que não foi dito, quando conseguem nomear o que está invisível — não somente a empresa continua próspera, mas sua família recebe de volta o que perdeu: confiança, clareza, direcionamento. E seus filhos herdam um padrão diferente: o de que conflito é conversável, que diferença é resolúvel, que silêncio não é solução. Ronaldo Behrens ABC Prosperity, PhD, Especialista em Neurociência do Comportamento e Professor da Fundação Dom Cabral. Disclaimer: O caso descrito acima é fictício e foi criado com base em padrões recorrentes da minha experiência profissional com famílias empresárias, co-sócios familiares e dinâmicas de sucessão. Nomes, localizações, setores e situações foram inteiramente inventados para fins ilustrativos. Qualquer semelhança com pessoas, empresas ou situações reais é mera coincidência. A identidade e a confidencialidade de clientes e casos reais são, para mim, um princípio inegociável.