Caso-tipo: o fundador que não sabia como "soltar" sem perder relevância

Recebi uma mensagem de um fundador que me tocou profundamente. "Ronaldo, minha esposa quer que eu me aposente. Meus filhos dizem que estão prontos. Meus conselheiros dizem que a empresa precisa de uma transição clara. Até meu médico diz que tenho que aprender a delegar. Mas existe uma pergunta que fico pensando à noite: quem sou eu se não sou mais o dono dessa empresa? Passei minha vida inteira aqui. Minha identidade está atrelada a isso. Como eu acho relevância em outra coisa? Não é medo de que meus filhos estraguem, mas sim medo de que eu desapareça." Essa pergunta é talvez a mais honesta que recebi, e também a mais importante. Porque essa é a verdadeira questão da sucessão. Não é jurídica. Não é tributária. É existencial. Quando você passa a vida inteira construindo uma empresa, ela se torna parte de quem você é. Sua identidade, sua relevância, seu propósito, tudo está atrelado. E a pergunta que fica é: "Quem sou eu sem isso?" E essa pergunta raramente é feita em voz alta, porque pode te fazer parecer fraco e egocêntrico. E, um homem que construiu tudo, não deveria estar com medo. Mas está! E esse medo é tão legítimo quanto qualquer outra dimensão da sucessão. O problema é que quando essa pergunta fica em silêncio — quando você não consegue nomeá-la nem com seus filhos, nem com sua esposa, nem consigo mesmo — ela governa a decisão. Você não consegue soltar porque soltar significaria “desaparecer”. E aí você faz o que muitos fundadores fazem: você adia. Você diz que estão prontos, mas continua intervindo. Você diz que vai se aposentar, mas aparece no escritório todo dia. Você cria ambiguidade onde deveria haver clareza. E seus filhos, que são competentes, ficam presos, uma vez que não conseguem realmente liderar enquanto você está ali. Nenhuma decisão deles é final enquanto você puder reverter. O que muda isso? Estrutura. Não uma conversa casual, mas uma conversa estruturada, facilitada, onde você consegue nomear: "Tenho medo de perder relevância. Preciso saber como fico relevante de uma forma diferente." Porque a verdade é que você não desaparece. Você se reinventa. O fundador que solta bem, fazendo a transição com método, não perde relevância; apenas muda de papel: de operacional para estratégico, de executivo para conselheiro, daquele que faz para aquele que orienta. E essa nova relevância é frequentemente mais profunda, pois agora você não está num dia a dia de urgências. Está genuinamente focado na visão, na orientação, na transmissão de sabedoria. Seus filhos ganham espaço para liderança real. Você ganha espaço para legado real e, ainda, pode ganhar tempo para investir em outros sonhos, em outras empreitadas. Contudo, um alerta muito importante tem que ser feito: essa sucessão somente deve ser feita se for fruto de uma decisão livre e esclarecida da parte do Fundador. Traduzindo, ele jamais deve se ver obrigado a sair do seu negócio, simplesmente porque é dele! Não deve sair por pressão de dar espaço a sucessores e nem mesmo, por [falsas] “exigências de mercado”. Deve sair porque compreende que chegou sua hora, seu momento de mudar, de aproveitar mais de seu tempo livre, de investir em novos projetos, de qualificar o uso de seu tempo, inclusive para a empresa. De funcionar como mentor de seus sucessores, atuando como peça fundamental para harmonizá-los e, a partir disso, criar novos ciclos de prosperidade para sua família e para a comunidade. Mas isso só acontece quando você consegue fazer a pergunta em voz alta: “Eu realmente quero deixar o dia-a-dia da empresa?”; E, caso queira, na sequência, "Como eu permaneço relevante de uma forma diferente?" Ronaldo Behrens Sócio ABC Prosperity, PhD, Especialista em Neurociência do Comportamento e Professor da Fundação Dom Cabral. __________________________________________________________________________________________________ Este conteúdo tem finalidade estritamente informativa e educacional, não constituindo oferta, recomendação ou solicitação de serviços. Casos mencionados são anonimizados e não identificam clientes. Informações tratadas conforme LGPD.