A pergunta que destrava qualquer conversa de sucessão

Qual é o problema real que a sucessão precisa resolver, para a família e para o negócio? Há poucas semanas, em uma reunião com uma família empresária de patrimônio relevante, o patriarca abriu a conversa com a clássica: "Quem de vocês assume a presidência?". Silêncio tenso e olhares cruzados. O diálogo morreu ali. Não era falta de preparo. Era o ponto de partida errado. Famílias empresárias investem em estruturas jurídicas e planejamentos tributários, e fazem bem. Mas pulam o essencial: alinhar o propósito coletivo antes de dividir posições. A pergunta certa deveria ser: "Qual problema a sucessão precisa resolver para a família e para o negócio?" Se começasse assim, a conversa deixaria de dar atenção ao ego e daria ao sistema. Do "quem ganha" para o "o que precisa funcionar". Do imediato para o sustentável. Quando feita com cuidado, algo muda na sala. O silêncio inicial não se transforma em desconforto, mas em reflexão profunda. Cada um pensa não no que quer, mas no que o coletivo precisa. Por que as perguntas erradas travam tudo? A lente da neurociência... Sob pressão de sucessão, o cérebro ativa o sistema límbico, que é a sede de emoções como medo e pertencimento. Perguntas como "Quem assume?" faz com que o cérebro interpreta isso como uma avaliação de valor pessoal. Dispara-se uma competição "Sou eu ou ele?", que provoca ativação das mesmas regiões que processam rejeição social e dor física. O corpo sente a ameaça antes da mente conseguir analisar racionalmente. Daí a discussão se torna defensiva e pessoal e a ansiedade contamina. Exemplo hipotético comum: patriarca pergunta "Quem fica com o controle?". Irmão A defende mérito (anos na operação). Irmão B, lealdade (ideias inovadoras). Discussão vira "Você sempre foi o preferido". Seis meses depois, ruptura: saída de executivo, perda de 15% em valor de mercado. A pergunta certa reorienta, pois foca no problema sistêmico (continuidade, crescimento, harmonia). Faz reduzir o cortisol e ativa o córtex pré-frontal, que é o espaço do raciocínio lógico e da visão compartilhada. Sugestões de como chegar à pergunta certa: método para conversas produtivas Apresento algumas sugestões para transformar diálogos tensos em alinhamento duradouro: Defina o problema coletivo: Comece com a pergunta central. Liste 3-5 desafios reais: "Preservar unidade familiar?", "Garantir crescimento?", "Profissionalizar gestão?". Evite respostas individuais; busque consenso inicial. Mapeie impactos duplos: Separe família (valores, relações) e negócio (estratégia, rentabilidade). Pergunte: "Como isso afeta laços afetivos?" e "Como impacta resultados?". Isso pode revelar trade-offs invisíveis. Gere soluções sistêmicas: Brainstorm com critérios explícitos (competência, alinhamento, tempo de casa). Priorize o que resolve o problema raiz, não as posições individuais. Teste e registre: Simule cenários. Documente acordos em protocolo familiar. Revise em 6 meses. Assim, constrói-se legitimidade e accountability. Exemplo hipotético de aplicação: família começa pela pergunta certa, que revela um problema: "Transição sem paralisia decisória". Mapeiam: família precisa de equidade emocional; o negócio, de liderança distribuída. Solução: filho A como CEO, filho B foca em inovação, implementa-se um Conselho misto, consultivo. Transição fluida que gera crescimento e prosperidade. Aqui, sucessão vira processo colaborativo. Não disputa. Da contaminação ao alinhamento: o ponto de virada Famílias que pulam direto para "quem assume?" contaminam o diálogo com ansiedade posicional. Se fazem a pergunta certa, há uma inversão: discute-se o propósito primeiro e os papéis depois. Neurociência confirma: quando há foco em problema coletivo, há uma redução na motivação de ganhar — o que diminui a intensidade da busca seletiva por evidências. Além disso, há maior ativação do córtex pré-frontal medial, que permite mentalização — pensar sobre o que o outro está pensando. Isso não elimina viés de confirmação, mas o torna menos defensivo e mais colaborativo. Nos processos que conduzo — incluindo aulas na Fundação Dom Cabral —, essa pergunta representa uma virada de perspectiva. Depois dela, divisões acionárias, remunerações e estratégias fluem com mais clareza e tranquilidade. As relações se fortalecem e os negócios prosperam. Sucessão bem feita começa pelo norte comum. Sem ele, herdeiros capazes herdam caos. Ronaldo Behrens Sócio ABC Prosperity, PhD, Especialista em Neurociência do Comportamento e Professor da Fundação Dom Cabral.